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Um vinho de se lhe tirar o chapéu

Benditas aduelas

Na Consoada bebi um vinho esplêndido em casa do meu cunhado. Vinho de uma pipa encontrada num cardenho esbarrondado e ensilveirado do Rio Torto. O vinho da pipa estava quase no fundo, mas as borras do bom vinho do Porto são milagrosas. A pipa encheram-na com vinho novo e, passado um ano, deu esta maravilha (...)
António Cabral

Uvas do vale do rio Torto, afluente do rio Douro, na sua margem sul, bem próximo do Pinhão - coração do Douro. Quando cheias chegam as dornas, os sentires afloram pelos mais distintos comentários:

- Este sim!
- Cheira-se-lhe a alma!
- Boa pomada há-de dar, digo-vos eu!

Ali permaneceu a pipa, por muitos anos, no canto da antiga adega. Esgotou-se no tempo, definhando-se o vinho na quantidade, encorpando-se e enaltecendo-se, contudo, de sabores cada vez mais intensos. Humilhada no desprezo a que foi votada, a pipa desembebedada deixou vencer-se pela idade e esbarrondou-se. Mesmo assim, ali se ficou a borra velha, encantada, protegida por meia dúzia de aduelas. 
Benditas aduelas pelo esforço e dedicação!
Reconhecidos os herdeiros, deitaram em casamento novos sabores, mais jovens e claros, sucedendo-se festas, brindes e renovados encantamentos. Tentações irresistíveis por sucessivas gerações, conversas intensas, demoradas, às vezes desmedidas e a generosidade do vinho ali se retém, acrescentada!

Na foto, pipas em miniatura efetuadas pelo saudoso Sr. Manuel Dias da Silva, tanoeiro, de Vilarinho de S. Romão, concelho de Sabrosa.

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