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Douro: carrego atribulado

Um carrego atribulado do carreiro Benedito
por José Ribeiro


Estávamos em meados dos anos cinquenta e seguia o seu caminho normal de Vilar de Maçada para o Pinhão pela estrada de Sabrosa com uma pipa de vinho tratado para uma casa inglesa o carreiro Benedito e os seus dois ajudantes, os três já bem «tratados» também com umas pinguinhas surripiadas à dita pipa. 
Era relativamente fácil matar a sede num néctar tão tentador como era uma pipa de quinhentos litros de vinho fino, ali à mão, transportada na solidão de um caminho e na pachorrenta chiadeira de um carro de bois… Com um pequeno escopro e umas pancadinhas laterais aliviava-se um bocadinho um dos aros, uma verruma fina fazia o furinho no espaço entre aduelas por onde uma palhinha seria o biberão para tal deleite! Com um bocadinho de sebo no furo e re-apertado o aro da pipa, ficava tudo como à saída do armazém. 
Mas aquele carrego, nessa tarde escaldante de verão pela estrada de Sabrosa, iria deixar uma história para contar… Na descida para o Pinhão um solavanco inesperado na valeta abanou com violência a carga, fez saltar as cordas da amarração e num ápice a pipa resvalou para a estrada, rolou por ali abaixo por umas veredas em socalcos e em segundos foi desfazer-se com fragor e com uma enorme corola de espuma nas fragas e nas águas do rio Pinhão. 
O nosso Benedito, ainda inebriado pelos néctares assim desperdiçados e numa atitude de desabafo com aquela súbita desgraça e com o prejuízo que não era pouco - aquela pipa teria de ser paga por ele próprio - só teve uma expressão que ficou como um pregão de espanto e ao mesmo tempo de uma raiva meio contida: Adeus minha rica pipa, adeus Flor da Itália!

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