Pela Ladeira do Arrebentão IIINetBila'News Avançar para o conteúdo principal

Pela Ladeira do Arrebentão III

Pela Ladeira do Arrebentão III
por Jorge Lage


Linguagem popular


A mêo da tarde do dia seguinte regressámos a Valdasmós para virar o feno. E passados mais dois dias voltámos lá para trazer a carrada.
Puseram-se ao carro as varas compridas ou grade, com duas estadulhetas à frente e duas atrás, para carregar mais feno que até batia no cachaço dos beis. Até as velhas engarelas deram lugar a umas novas e de estadulhos mais altos.
Com o feno já junto em pequenos montes preparados para a forcada e mandar para o carro, o meu Pai e o meu irmão avaliaram, em pormenor e desenharam mentalmente, como deviam sair do lameiro encosta sobessa acima, rumo à Ladeira do Arrebentão.
A Ladeira do Arrebentão era o «Cabo das Tormentas» da minha aldeia. Só os lavradores mais destemidos se aventuravam com um carro carregado Arrebentão acima.
O feno engoliu engarelas, estadulhos, mesmo os dois estadulhos de volta. Dos bois apenas se viam os pescoços, as molidas e os focinhos.

O meu Pai calcou munto bem o feno, segurou-o com as trabincas e foi bem atrabincado com uns laços mais grossos e novos. Depois de carregado o último montão de feno apertou-se o carro com a grande corda carral. Foi puxada e apertada até mais não poder, começando por baixo dos estadulhos de volta, correndo da frente para trás os barbiões traseiros e daí, feitas as lançadas retesadas, as cordas voaram em cruz para os barbiões da frente. A corda ia retesando e a lançada selava o aperto perfeito, corda a corda, aos quatro tornos dos barbiões e todos a puxarmos, à voz profunda da alma do meu Pai: 
– Óh… Oupa!.. Óh… Oupa!... Óh… Oupa!... Já está bem! Não vais mais! 
O carro de feno mais parecia uma tela viva saída dum mágico artista do naturalismo. Apertada a última corda, o meu Pai lembrou o dito popular: «o carro bem apertado ajuda o velho cansado». E mandou o Manuel tocar os beis até ao portal a poente. Era um carreto de respeito. A saída de assobessa deixou o Lila em desvantagem do lado debaixo e o meu Pai picou-o na ilharga, em simultâneo com três ou quatro pancadas secas nas baras do carro: 
– Uah! Utah! Ei valente! Às vozes de afouto que vararam o silêncio do calmo entardecer deixaram o Lila em pânico e urrou. O urro, cavernoso, cortou o Vale. Fiquei arrepiado e a viver uma das minhas maiores odisseias do campo. O Castanho já estava experimentado e apenas deitava a enorme língua de fora. Um pouco mais à frente, em terreno mais chão, mandou parar os beis: 
– Óh! 
Calços nas rodas e o Lila batia o fole como nunca com a língua de fora a assar. Foi-lhe afagado o focinho e acarinhado com palavras mansas e amigas. Recompostos venceram a Estrada de Vale das Mós e arrouçaram à direita, deixando atrás a Estrada da Formigosa e iniciaram a dura e temida Ladeira do Arrebentão. 
Descansaram umas três ou quatro vezes até chegarem à subida mais a pique. 
A Ladeira do Arrebentão tinha de ser vencida como se lavrador e todos os que estivessem por perto fossem um só, ao lado dois bois ou de ombro a puxar até mais não poder. Se os beis se negassem na subida podia ser uma tragédia! O carro podia chimpar-se e apanhar alguns de nós debaixo, ou os beis aleijarem-se e até algum morrer.
No Alto da Portela, aparece o Arnaldo Falcão, lavrador do casal do Capitão Ilídio Esteves, com a junta de beis, como dois castelos, a descer para nós. Era a junta para acamboar.
Depois de presos ao carro por uma segunda corda carral o meu Pai dá a ordem: 
– À minha voz os dois arrancam e param e os calços ou pedras para travar as rodas têm de ser postas nesse instante. O meu Pai lançou das entranhas da alma um cortante e cavernoso grito: 
– Uah!... 
E foi secundado pelo Manel e pelo Falcão com vozes menos cortantes, mas de incitamento sem reserva aos animais.
O Lila lançou um urro preocupante. Ào «óh!» do meu Pai estacaram as duas juntas e o carro foi calçado em dois segundos, com duas pedras nas rodas, para não ir encosta abaixo arrastando juntas e lavradores.
A carrada, Arrebentão acima, revoltou as entranhas do Lila que ficou todo borrado de bosta e o Castanho um pouco menos. Foram afagados e amimados para que a coragem e a força não quebrassem.
No segundo lanço vencia-se o troço mais perigoso.
Ao: – Uah!... Utah, valente!... O carro começa a subir com dificuldade e todos metemos ombros ao carro, puxando quanto podíamos. O Lila urrou e ajoelhou, mas com uma picada à ilharga do meu pai e um afoutar de alma, seguido de fortes batidelas com a aguilhada nas baras e cambas do rodeiro ergueu-se. Com dois ou três urros mais lúgubres foram vencidos os quinze metros mais difíceis.
O Arnaldo no seu estilo teatral e estridente quebrou o silêncio:
– Óh Ti Eugenho, o Lila é melhor do que parecia. Faz-se um bei bô! A carrada é balente e ninguém nas redondezas se astrebia nesta subida! Temos que ser uns prós outros.
– Vamos ter cuidado no último lanço, num bá algum bei negar-se e arranjarmos das boas – sentenciou o meu Pai.
O Falcão sabia que não se podia facilitar com o meu Pai. Ele media a força das juntas, o peso do carro e a dificuldade do terreno. Eu nunca lhe vi os bois negarem-se e ter que se desfazer a carrada. Desfazer a carrada era uma humilhação porque alguns da aldêa atiravam com piadas e mangações pelo mêo.
No último lanço o Lila urrou mas eram urros mais confiantes e tinha vencido a prova de fogo, com ajuda de todos. Já podia fazer a acarreja tranquila porque ganhou a confiança e coragem para os grandes desafios das fainas agrícolas. Solta a junta do Falcão de acamboar no croeiro do Alto da Portela, preferiu vir atrás do carro e dar dous dedos de conversa com o mou Pai. O resto do caminho foi mais aliviado.
As cantadeiras e o eixe executavam um chiar triunfal e os homes do pobo já noute foram-se chigando para o terreiro do tanque para ver que carro era aquele com um canto triunfante.
Chegados ao Largo do Curral da Dona Elisa (do Casal de Vassal) o mou Pai disse que se descarregava o feno na madrugada seguinte porque não era bô andar com lampiões no meio do feno e uma desgraça pode calhar quando menos se espera. No dia seguinte não quis perder a ocasião para escachouçar e calcar o palheiro do feno, tendo uma sensação de liberdade.

in "Antologia de Autores Trasmontanos e Alto-durienses e da Beira Trasmontana"

Mesmo criança trabalhava e divertia-me, feliz da vida como nunca. Hoje, o trabalho faz parte da minha vida, dando-me prazer.

Mirandela, 21 de Junho de 2017
Jorge Lage

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Encontro com Delfim da Silva Monteiro, nas Paredes

Número de telefone para contactar o Sr. Delfim: 969179420 No lugar das Paredes, freguesia de S. Lourenço de Ribapinhão, o encontro espontâneo com Delfim da Silva Monteiro que, em tempos, me contou a lenda de Nossa Senhora das Candeias. Neste vídeo, em linguagem simples, muito expressiva, refere as curas que consegue a quem o procura, através da invocação de Nossa Senhora da Saúde!

Quadras populares a S. Gonçalo de Amarante

Quadras populares a S. Gonçalo de Amarante in «Aveiro do Vouga ao Buçaco» Enviado por Jorge Lage (…) Foguetes em S. Gonçalo Há festa na beira-mar! As velhas cantam de galo… Nunca é tarde p’ra casar! (…) S. Gonçalo, meu Santinho, Como tu não há nenhum! Arranja-me um maridinho Para quebrar o jejum… (…) Meu santinho, desespero, Repara na minha idade! Por favor, eu também quero O que quer a mocidade (Amadeu de Sousa – poeta popular) (…) S. Gonçalo de Amarante, Casamenteiro das velhas, Por que não casais as novas? Que mal vos fizeram elas? (…) Hás-de saltar as fogueiras À noite no arraial, Dançar com velhas gaiteiras Uma dança divinal. (João Gaspar) Quadras populares a S. Gonçalo de Amarante in «Aveiro do Vouga ao Buçaco», de Amaro Neves e outros. As festas e romarias fazem parte das festas cíclicas anuais e são precisas para a alma do povo como de pão para a boca. O povo tem remédio para tudo na Bíblia e nas tradições e saberes orais. Há santos, rezas, mezinhas e produtos do campo para tod...

São Lourenço

Olá, São Lourenço! São Lourenço, Diácono e Mártir, figura de fé e coragem, nasceu em 225, em terras que hoje fazem parte do Reino de Espanha. Conhecido, em espanhol, pelo nome San Lorenzo, viveu uma vida dedicada à Igreja e ao serviço cristão. O seu martírio ocorreu em Roma, a 10 de agosto de 258, sendo por isso celebrado nesse dia. Reconhecido como um dos primeiros diáconos da Igreja Romana, permaneceu na memória dos fiéis pela sua bravura diante da perseguição aos cristãos. Foi condenado à morte e queimado vivo sobre uma grelha, um sofrimento que se tornou símbolo da sua resistência e fé inabaláveis. Por essa razão, as representações de São Lourenço mostram-no, frequentemente, segurando uma Bíblia, e ao lado da grelha que marcou o seu martírio. Em sua honra, numerosas igrejas assumem o seu nome, assim como várias localidades, entre elas São Lourenço de Ribapinhão. Douro! Olá, São Lourenço! São Lourenço de Ribapinhão, Sabrosa A freguesia de São...