Oleiro de Bisalhães

O Senhor Ramalho, oleiro de Bisalhães


Foi em 1962 que fui para a estrada do Marão e já o meu pai lá tinha estado desde 1940, mais ou menos. Era um saltinho de Bisalhães até ali. Por volta de 1950, alcatroaram a estrada... Lá se ouve o barulho de um automóvel. Será que vai parar? Vinte ou trinta escudos era o que fazia num dia.
Enquanto os meus filhos eram pequenos, a minha mulher vestia-os com qualquer trapo que comprava na feira. Quando cresceram, tive de arranjar emprego na Câmara. Era varredor, mas não gostava. Ao fim do dia, lá ia eu para o barraco que fiz ao pé da estrada. Aí tinha o forno, o barro e a roda. O pior era no Inverno: vinha o vento e muitas vezes partia-se a louça. E o frio? Muito lá rapei.
E andei assim uns anitos. Depois fartei-me de varrer as ruas; o que eu gostava mesmo era fazer panelos. A "patroa" bem dizia: ó homem, um emprego é mais certo, e logo na Câmara. Não te metas em alhadas. Mas eu não quis saber e dediquei-me à arte a tempo inteiro. Dei um arranjo no barraco e meti-lhe uma porta. O cantoneiro não queria, por causa do chefe, dizia ele. Mas eu não ligava. Muitas vezes lhe dei da minha comida. Fazia-te um arroz de carne a fugir pelo prato, que era uma maravilha. Até parece que ainda me está a saber!


Nunca me esquecem os carros de bois que por ali passavam, carregados de estrume, a chiar. Parecia um comboio. Às vezes eram mais de vinte.
Lá vem outro automóvel... porra, ninguém pára... estou "cozido" e mal pago.
Tempos difíceis, aqueles. Mas pronto, ia dando para o caldo.
Depois veio a via rápida. Julguei mesmo que os oleiros tinham os dias contados.
Quando inauguraram esta estrada, esta, onde estamos agora, montei aqui mesmo, neste lugar, a minha banca. E levantei mesmo um barraquelho. A polícia ainda me chateou, mas olhe, atrás de mim vieram alguns dos meus colegas e fizeram o mesmo, até que nos deram este espaço, graças a Deus. E não se vende mal, aqui. As pessoas gostam, o barro é barato. O mais caro é o frete, até Chaves: é lá que o barro é melhor.
É assim a vida, amigo. A panela? Ah, já nem me lembrava. Deixe lá, fica a dever, paga para outra vez, que eu bem o conheço. Bem, são mil e quinhentos, por ser para si. Olhe que a panela dá para um quilo de arroz. Obrigado, até outro dia.

Vila Real, 2000-11-12, A. Fernando Vilela

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