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O amigo do Toino

Toino ouviu com alguma paciência o amigo

Viajava só, Toino, descansado, estrada fora em marcha lenta relativamente aos farolins dos outros condutores. Afinal era já noite, encontrando-se ali a fazer que conversava, ele mais o amigo da tasca. Depois de curva apertada, mil pensamentos na sua cabeça sem adivinhar o futuro, para nunca se enganar, repetindo que a seguir a uma curva vem sempre uma reta, por mais pequena que seja. Pois é, tudo isso é verdade, mas desta vez, a seguir àquela curva, lá estava a reta, e era mesmo a reta viva porque se mexia mas, com ela, um tipo assim – como tu – dizia ele, de grande volume – mais que tu – continuava, a acenar com um pano, vendo de imediato que precisaria de ajuda, as mãos bem postas ao alto. 
– É como se estivesse a enxergá-lo, mesmo agora. Parece impossível!
Até àquele lance, Toino ouviu com alguma paciência o amigo, mas não poderia deixar enganar-se. Não senhor, ao contrário do que ouvira, a seguir a uma curva pode aparecer outra curva e, sendo duas torna-se tudo muito mais complicado. É verdade, não deixa de ter alguma razão. Toino acaba por ficar confuso e, com alguma irritação, a ver-se pela humidade na exalação, recusa-se a aceitar essa evidência. Com denotado esforço a compreender-se pelos sinais, tenta fazer um desvio quando encontra aquela figura no meio da estrada de braços no ar. Prossegue devagar, mas nunca se sabe se os travões o traem ou fazem abrandar, retorquindo zangado o dono da tasca que nunca na vida viu semelhante coisa: – uma estrada com os braços no ar.
– Estás mas é maluco. Olha…! Ou bêbedo! 
Toino, pelo escuro, viaja descansado, só, estrada fora, em marcha lenta relativamente ao que consegue observar nos outros condutores. Bebeu ao jantar apenas o necessário para conserva de açúcares. De rosto apontado em frente, gosta de sentir-se aquecido pelo bafo da “chaufagem”, que funciona – digo-te eu, que sei. Ou se desvia ou vai em frente, apenas as duas hipóteses consegue absorver, junto com as baforadas e mais uma golada do tinto.
Toino começa a dar sinais de algum cansaço, agora que conseguia desenrolar tudo o que tinha para desenrolar. Tanto falava e conduzia ao mesmo tempo, com fervor, que Toino começava a compreender e a temer tamanha excitação do amigo. Um caso assim, a acontecer de repente, sem esperar, no meio da estrada e, por mais devagar que circulasse, seria preciso se estivesse no lugar dele, ter os reflexos bem calibrados para evitar o desastre infeliz. Nesta efervescente meditação, faz passar de novo o pano pelo frontispício, ao mesmo tempo numa sacudidela de cabeça, de modo a reter melhor a visão do amigo, não fosse ele em descuido ou falta de travões atropelá-lo.

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