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A pisa das uvas

Ganhar a "meia-noite"

Na região transmontano-duriense, a que melhor conheço, mas também noutras regiões, a pisa tradicional das uvas, após a sua colheita, era dos trabalhos mais importantes para uma boa fermentação e consequente preparação do bom vinho. Ainda hoje, em algumas Quintas, também com fins turísticos, uma pequena parte do vinho faz-se por esse processo antigo. 
A pisa das uvas realizava-se tradicionalmente num lagar, por homens que, em grupos, com os braços dados uns sobre os outros, efetuavam primeiramente o “corte”, percorrendo o lagar várias vezes, até que as uvas se transformassem num líquido vinícola espesso. Este procedimento inicial, mais organizado e responsável, exigia bastante esforço. De seguida, o trabalho tornava-se mais ligeiro, pois os pisadores podiam agora percorrer o lagar de modo aleatório e mais soltos, iniciando-se alguns jogos adequados àquele ambiente festivo, durando cada sessão quatro horas. Além dos jogos, como por exemplo a cabra-cega, algumas partidas eram pregadas aos mais incautos e muitas histórias e “músicas” eram contadas. Tudo isto após uma bucha de aconchego (pequena refeição ligeira), normalmente servida pelo dono das uvas, a meio tempo da lagarada. Havia mesmo quem abonasse comida mais substancial num prato, seguro numa das mãos, o garfo na outra, sempre a circular. A “copaça” que se atestava uma, duas ou mais vezes, pousava-se num dos muretes do lagar e, por via da boa disposição que tudo isso causava, ocorria com alguma frequência, um ou outro encharcar-se no mosto, auxiliado muitas vezes por despercebida ombrada de um qualquer finório, entendido nestas andaduras. 
O trabalho das lagaradas era normalmente realizado à noite, das 20:00 às 24:00 horas. Durante o dia, era feita a vindima e depois da janta, ganhava-se a meia-noite. Após uma jornada de trabalho, mais quatro horitas extraordinárias davam jeito a muita gente. Outros havia que, em vez de trabalharem, preferiam andar de lagar em lagar, observando e satisfazendo curiosidades e participando de igual modo nas brincadeiras. Alguns vinicultores que antigamente não se conheciam por tal designação, mal dormidos e preocupados com a debilidade da fermentação e a fraqueza do seu lagar, decidiam pela sabedoria dos anos que uma "coça" suplementar seria absolutamente necessária. Assim, toca a chamar com urgência os lagareiros, fosse a que horas fosse. Esta solicitação era sempre satisfeita – o mesmo que acudir a uma desgraça –, não devendo ligar-se ao exagero das palavras.
A imagem composta para este artigo mostra um aspeto de uma lagarada, precisamente na altura do "corte", não devendo, contudo, confundir-se com o cancã, dança ritmada francesa, muito em voga na década de 1840, nos cabarés parisienses como o Moulin Rouge, em que as bailarinas com as suas vestes coloridas e esvoaçantes, levantavam acrobaticamente as pernas e sacudiam as saias, exibindo elegantemente as ligas das meias.

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