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Padre Fontes

Padre Fontes
enviado por Eugénio Mendes Pinto

Romance de uma vida (excerto)

Montalegre - Padre Fontes
Montalegre

Ando bem disposto, apesar do mau tempo que se tem feito sentir pelas bandas do Barroso.
Hoje, o Sol abriu o cinzento e foi possível ver o azul do mar no céu.
Não quero transformar o texto em poesia. Tudo quero simples como a minha simplicidade. Levantei-me cedo, pois este silencioso aroma da manhã obrigou-me a deixar os lençóis. Mas ando com azia. Penso que é do vinho doce que uns amigos me trouxeram do Porto. Delicioso esse mel. Não resisto àquele sabor da cor do sangue de Cristo, sem fermentações. Divino. É nestas pequenas coisas que Deus existe. Julgo que não estou a dizer nenhuma atrocidade. Deus está nas pequenas coisas, nos momentos que ficam para a eternidade, na beleza, na harmonia.
Mas deixemos Deus repousar no dia que amanhece.
Levantei-me, estive a escrever uns pequenos textos, celebrei missa e, como sempre, vim para a câmara. Durante a viagem de Vilar de Perdizes para Montalegre atravessou-se à minha frente, ou melhor, à frente do carro, uma lebre. Não tive tempo de travar e sei que ia um pouco distraído. Sou incerto a conduzir. Uma pequena pancada com a roda da frente do lado direito e ficou o bicho ali estendido no chão. Parei. Logo surgiu não sei de onde, um homem à estrada, que não conhecia. Então, padre Fontes, bateu no animal? Pois foi. Ainda bem que trouxe uma faca. Sangra-se o bicho. Não há nada melhor que um arroz de lebre. Fique com ela. Não senhor padre, a lebre é sua. Na verdade não podia calhar melhor. Costumo juntar-me com alguns padres amigos para falarmos, cantarmos, divertirmo-nos um pouco. Hoje, dia do nosso encontro, seria uma pequena surpresa. Voltei a casa, tirei-lhe a pele, cortei-a e deixei-a a temperar. Belo bicho. Belo arroz, pensava. Começava o dia em sol. E a noite continuaria nessa alegria e confraternização. Um arroz de lebre molhado a goles e tragos de um bom vinho alentejano deixa qualquer pensamento endoidecido.
Cantámos. Acompanhei eu a banjo as melodias. Não sei tocar muito bem. Nestas situações basta passar um dedo nas cordas e já todos cantam alegres, ajudados pelo dom do vinho frutado, quente, das planícies douradas. Noites que ficam. Ficam na memória, mesmo quando de manhã o relógio toca e a cabeça não atina com o local onde está, pois tantas são as dores e os movimentos circulares que não nos deixam estar em lado nenhum. Noites para adormecer e encantar a vida.
Antes do arroz de lebre, abri um presunto que tinha junto à lareira. Tinha lá dois. O que abri estava todo ruído na parte interior esquerda pelos ratos! A casa é velha e está infestada desses bichos. Tenho colocado veneno em tudo quanto é canto, mas com venenos melhores pendurados nas paredes não há rato que troque os alimentos.
Estou a ficar cansado. Vamos dormir. Esquecia-me. Imagina só o dinheiro que gastei a comprar uma casa! É bonita, mas… Agora para a cama.
Deixarei tudo seguir um rumo certo, sem limites à imaginação. Deixarei essas histórias que ainda não vos saíram da cabeça, sabeis quais são, para o fim. Há coisas que perderiam o encanto se fossem contadas já. Temos de ser pacientes, olhar calmamente o mundo, saborear os momentos doces nesta terra negra, de lama. Tudo devido à chuva que hoje voltou…

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